A lucidez perigosa

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Estou sentindo uma clareza tão grande, que me anula como pessoa atual e comum:é uma lucidez vazia, como explicar?Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer, vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. Além do que: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano- já me aconteceu antes.

Pois sei que- em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade -essa clareza de realidade é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis.

Eu consisto, eu consisto, amém.

*Clarice Lispector, in A descoberta do mundo.

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3 comentários sobre “A lucidez perigosa

  1. Concordo contigo, Mariel. Neste texto, há uma reflexão sobre o conflito entre a razão e a fé. A lucidez seria a razão e ela apavora o eu-lírico, que prefere a fé e roga a Deus para que Ele lhe tire a clareza da visão racional, que nos faz ver o mundo de maneira real e cruel.

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