Filme Crimes Ocultos

“[…]Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim.E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam nosso cão,e não dizemos nada.Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa,rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada[…]”

Sinopse da Paris Filmes:
Suspense ambientado na União Soviética em 1953; Crimes Ocultos (Child 44) registra a crise de consciência do agente secreto da polícia Leo Demidov (Tom Hardy), que perde status, poder e sua casa ao recusar denunciar sua própria mulher, Raisa (Noomi Rapace), como traidora. Exilados de Moscou para um sombrio posto provinciano, Leo e Raisa unem forças ao General Mikhail Nesterov (Gary Oldman) para encontrar um serial killer que captura jovens garotos. Sua busca por justiça ameaça o acobertamento de todo um sistema imposto pelo rival psicopata de Leo, Vasili (Joel Kinnaman), que insiste em dizer que

“Não há crimes no paraíso”.

Título em Português: CRIMES OCULTOS
Título Original: CHILD 44
Tempo de Duração: 137 minutos
Ano de Produção: 2015
Diretor: Daniel Espinosa
Diretor de Fotografia: Oliver Wood
Roteirista: Richard Price, baseado no livro de Tom Rob Smith
Produtores: Michael Schaefer, Ridley Scott e Greg Shapiro
Elenco: Tom Hardy, Joel Kinnaman, Gary Oldman, Noomi Rapace
Gênero: Suspense/ Drama
Países de origem: Republica Tcheca | Inglaterra | Romênia | EUA

(Crítica de Luiz Felipe Pondé, filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv.)

“Crimes Ocultos é uma aula de história. Nos anos 1950, a esquerda já era mau caráter e já mentia sobre a URSS.

O filme “Crimes Ocultos” (em cartaz nos cinemas), de Daniel Espinosa, deveria ser visto por todos os alunos que escutam bobagens da boca de seus “professores de humanas” sobre o socialismo.

Antes, um reparo. Estou longe de achar que a sociedade de mercado seja um docinho de coco. Pelo contrário, concordo com o sociólogo americano Daniel Bell em seu primoroso “The Cultural Contradictions of Capitalism”.

Nessa obra, Bell deixa claro como as virtudes que produziram o capitalismo –a saber, autorresponsabilidade, contenção do desejo imediato, poupança, dignidade pensada como fruto do trabalho pessoal– estão em crise por conta de toda uma geração mimada, narcisista e consumista que nasceu da própria riqueza capitalista.

Entretanto, a sociedade de mercado continua sendo a única forma conhecida de produção de riqueza social e de preservação da autonomia individual, ainda que não devamos ser os otimistas ingênuos que acham que o mercado “cura” tudo.

Tampouco a direita fascista, homofóbica, escrota, serve. É um lixo. Dito isso, vamos ao que interessa.

“Crimes Ocultos” é uma aula de história sobre a URSS, tão necessária contra as mentiras dos socialistas brasileiros. Na época, anos 1950, a esquerda já era mau caráter e já mentia sobre a URSS. Mas quero pontuar uma questão específica que aparece no filme.

“Crimes Ocultos” narra a história de um oficial da polícia política socialista, a versão comunista da Gestapo, que investiga um serial killer que matava crianças. O governo stalinista negava que existissem homicídios na URSS porque isso era coisa do mundo podre capitalista.

Sendo assim, os superiores do herói recusam a investigação sob a rubrica stalinista de que “não há crimes no paraíso”, leia-se, no socialismo. Ao final, fica claro como um serial killer era quase “um detalhe menor” no absurdo que era o mundo socialista real.

Qual a questão específica que quero pontuar no filme? É a seguinte: a “versão oficial” que o policial é obrigado a aceitar ao final, para criar um departamento de homicídios na polícia, é que todo e qualquer homicídio na União Soviética seria fruto da contaminação do paraíso socialista pela política do mundo capitalista. Não fosse por essa contaminação, não haveria crimes no paraíso socialista.

Voltemos ao Brasil hoje. Não vou falar de política propriamente dita, vou falar da modinha que muitos psicanalistas e associados hoje em dia pregam por aí, a saber, que “a verdadeira clínica é a política”.

Ou, o que é a mesma coisa, que a diagnóstica, a ciência que organiza os padrões etiológicos (causas) da psicopatologia, deve ser mudada para que aspectos políticos e sociais tenham espaço na determinação dos sintomas.

Sei que o negócio é complicado, mas, trocando em miúdos, é o seguinte: os sintomas seriam fruto da ordem social injusta do capitalismo. Se mudarmos essa ordem via uma política socialista, muitas doenças desapareceriam.

Ou seja, segundo esses neostalinistas (envergonhados de confessar seu amor bandido pela sociedade totalitária), com o socialismo não teríamos pânicos, impotências, depressões e quadros afins.

Gostaria de ver uma conversa entre Slavoj Zizek (o guru dos neostalinistas tupiniquins), grande representante desse lacanismo meia boca que põe a “culpa” da psicopatologia no capitalismo, e os superiores do policial em “Crimes Ocultos”.

Dizer que homicídios são fruto da sociedade doente capitalista, sujando o paraíso socialista, é a mesma coisa que dizer que a verdadeira clínica é a política.

Stálin dizia que o capitalismo gera assassinos, a trupe neostalinista afirma que o capitalismo gera quadros clínicos que noutra ordem deixariam de existir.

Ou seja: a política socialista cura o mundo das psicopatologias capitalistas.

Num mundo em que essa trupe mandasse (“sem porcos capitalistas e indústrias farmacêuticas”), quando deprimidos e afins continuassem a aparecer, eles iriam por a culpa em traidores que mantinham sua vida “promíscua” com as desigualdades do capitalismo. O problema da esquerda não é político, é de caráter.”

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