Carta escrita pelo meu pai para mim há 19 anos

pai

Querida Fernanda;

Temo não compartilhar de tal conquista escolar. O que sinto vai tão além desta, que me faltam palavras e mesmo emoções claras.

Vivi com você uma etapa de vida, esta sim, vital, essencial, profundamente bela, sem parâmetros possíveis de comparação.

Querida Fernanda, você me deu tal felicidade, desde que nasceu, que não consigo ver outro caminho, além de me sentir alguém privilegiado pela graça de ser seu pai. Você sempre foi assim: engraçada. Não só no restrito sentido de provocar risos pelo seu humor inato (o que tanto aconteceu!), mas por encher a minha vida de uma graça sublime, divina. E você é plena deste tipo de encanto.

Nunca me importei com o seu desempenho escolar, é fato. talvez aparentemente indelicado, porém sincero, não posso esconder tal sentimento. O que você me deu, amada filha, foi tanto, que algo desta grandeza não pode ser comparado.

Reconheço a sua dedicação para as conquistas dos bons resultados nas avaliações escolares, que efetivamente obteve. Não as considero nada além de jogos, que lhe proporcionaram prazer e que por tabela também me encantaram, não pelo seu significado em si, somente pela alegria de ver os seus olhinhos brilhando.

Quando a vi carregando como melhor aluna a bandeira do colégio não vi a bandeira, o uniforme, enfim quaisquer outros objetos, só me importei com a sua satisfação. O seu sorriso, por ter conquistado algo importante para os seus valores de menina, se sentindo valorizada aos olhos do mundo, era o que me causava embevecimento, talvez mal interpretado por outros que não me vislumbravam a alma.

Sempre fomos cúmplices. Amigões. Absolutamente capazes de expressar o que sentimos um pelo outro. Os olhos sempre nos bastaram. Um sólido amor, pleno do seu verdadeiro significado (…)

Foi com você e por você que eu nasci de novo. Vi e senti pedrinhas, plantas, lama, bichinhos “insignificantes”, gelatina espremida nas mãos, vento, água, cores, sons, tintas… Você me mostrou o mundo de uma forma inédita, ou talvez esquecida. Sou grato à vida por ter me dado tal chance de vivê-la por seu intermédio.

Penso que talvez você tenha me ensinado mais do que eu a você. Que eu possa ter sido um deslumbrado e surpreso instrumento, que permitiu que ambos lucrássemos. Minhas “lógicas” questionadas pelas suas perguntas, me levaram a reflexões que nunca seriam tão esclarecedoras, por se basearem em experiências imediatas, acompanhadas de olhinhos ora espantados, ora inquisidores à espera de explicações verdadeiras, não cheias de pré-conceitos, consideradas o bastante para a maioria.

Aprendi com você mais do que com os meus professores. E sou profundamente grato por você ter me proporcionado isto numa fase da vida em que acreditava saber “quase tudo”.

Tudo o que lhe desejo é que você tenha tudo o que me deu. Uma brilhante clareza, para que na maturidade que se aproxima, possa descobrir mais beleza e felicidade numa vida, muito maior do que a que nos ensinam como sendo a única sensata.

Obrigado por tudo;

Seu pai.

* Extraída do Caderno Filhos&Pais para os formandos do Ensino Fundamental de 1996 do Colégio Anglo-Americano

paiescorrega

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2 comentários sobre “Carta escrita pelo meu pai para mim há 19 anos

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